Comunicação Social do MPPR

Meio Ambiente

26/03/2014

Compostagem só abrange 5% dos municípios do PR

Exemplo em outras cidades do país, opção para o lixo orgânico esbarra em dificuldades de gestão e orçamento no estado.

O aproveitamento do lixo orgânico, material que representa ao menos metade dos resíduos sólidos gerados por cidades brasileiras, ainda é prática rara no Paraná. Segundo levantamento da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), só 5,75% das 399 cidades do estado desenvolvem ações de manejo deste lixo por meio de compostagem. A opção ajudaria a garantir vida útil maior aos aterros sanitários. O composto, ao invés de compactado e enterrado, passa por um processo biológico até se tornar adubo.

São 23 municípios, segundo Relatório de Diagnóstico do Plano de Regionalização da Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos do Paraná, que possuem centros de compostagem. Destes, 17 têm composteiras operadas por associações e cooperativas, através de convênios com prefeituras que oferecem resíduos para triagem e aproveitamento. Exceto Londrina, São José dos Pinhais e Foz do Iguaçu, as cidades envolvidas são todas de pequeno porte.

A problemática, para o secretário de Meio Ambiente do Paraná, Luiz Eduardo Cheida, se deve a dificuldades orçamentárias enfrentadas pelos municípios. “Mais de 60% das cidades do estado não têm 10 mil habitantes e contam com um orçamento pequeno. Entre trocar o motor de uma ambulância e arrumar o pátio do aterro, o prefeito vai acudir a Sáude”, pondera. O secretário acredita em mudanças com a criação de consórcios para tratamento do lixo. A partir da compostagem, os prefeitos pagariam menos com o transporte dos resíduos.

Em Londrina, a técnica ainda está longe de aproveitar todo o lixo orgânico. Os detritos representam 52% das 430 toneladas de resíduos coletados por dia. Hoje, só 20 toneladas passam por compostagem diariamente. O Fórum Desenvolve Londrina, movimento que tem entre suas instituições a Universidade Estadual de Londrina (UEL), lançou, diante disso, um caderno de estudos com sugestões para o material orgânico. A proposta consistiu na criação de centrais de coleta do material e de composteiras públicas nos bairros. “Hoje, a recuperação dos resíduos coletados na cidade ainda é pífia, cerca de 4%, incluindo os recicláveis”, justifica o presidente do Fórum, Cláudio Tedeschi.

Dificuldades

Em Tibagi, nos Campos Gerais, a compostagem desenvolvida desde 2009 já foi considerada modelo. Hoje, a dificuldade em fazer com que a população continue separando o lixo orgânico do material reciclável e dos rejeitos impacta na prática. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Murilo Mercer, a compostagem só está transformando em adubo 20% do lixo orgânico recolhido.

Em Marialva, que implantou o sistema depois de Tibagi, a estimativa é de aproveitar até 40% do lixo orgânico que segue para a Central de Triagem e Compostagem. “O adubo passa por análise microbiológica e é revendido pela associação responsável a produtores”, diz o diretor de Meio Ambiente de Marialva, João Olavo de Oliveira. A meta da cidade é levar para compostagem 100 toneladas por mês de lixo orgânico. Hoje, já alcança 60 toneladas mensais.


Panorama

O panorama de municípios que desenvolvem a técnica de compostagem para evitar enviar lixo orgânico aos aterros pode ser ainda mais crítico, segundo o MP-PR. Um levantamento do órgão considera que só 2,5% das cidades do estado empregam a alternativa para dar destinação correta aos resíduos orgânicos. Nesta lista de municípios entram apenas Marialva, Tibagi, Bituruna, Brasilândia do Sul, Alto Pequiri, General Carneiro, Alto Paraíso, Capanema, Ibiporã e Mauá da Serra. A Resolução 090/2013 do Conselho Estadual de Meio Ambiente estabelece que os geradores de resíduos sólidos deverão prever em 2014 a destinação do lixo orgânico compostável para unidades de compostagem ou outras tecnologias de tratamento. A partir de agosto, estará vedada a destinação integral do material orgânico aos aterros do Paraná.


Fertilizante

Material produzido é rico em nutrientes, diz professor

A compostagem consiste em um processo de transformação do lixo orgânico em composto de grande valor fertilizante para plantas e o solo. Isso ocorre através da ação de micro-organismos, temperatura e umidade. O professor Carlos Mello Garcias, da área de Saneamento Ambiental e Gestão Ambiental das Cidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que, exceto rejeitos, qualquer tipo de matéria orgânica, como folhas, cascas de frutas e restos de comida, pode ser utilizada para a criação de um composto orgânico. “Uma vez decomposto, este material vai gerar um adubo rico em nitrogênio, fósforo e potássio.”

Garcias observa que uma das maneiras mais simples de aplicar a compostagem é por meio da criação de pilhas ou leiras em um pátio. “Pode-se formar pequenas pirâmides e após 100 dias se terá adubo”, pontua. Ao longo deste período, comenta o professor, o lixo orgânico passará por diversas fases, em especial pela degradação e pela maturação. O ideal é que as pilhas sejam tombadas e passem por reviramento a cada sete ou oito dias para permitir que todo o material seja decomposto.

A compostagem, na opinião de Garcias, ainda é a forma mais viável para o aproveitamento da matéria orgânica coletada nos municípios. “O uso de biodigestores ainda é muito complexo. É preciso captar e filtrar o gás”, assinala. Ele recomenda que projetos de compostagem adotados por grandes cidades sejam detalhados e que considerem mais de um pátio para composteiras em suas centrais de tratamento de resíduos.

Ações ganham espaço em várias cidades do país

Algumas iniciativas de incorporação da compostagem ao tratamento de resíduos sólidos nos municípios vêm servindo de exemplo a cidades que ainda não adotaram a técnica. No interior de São Paulo, a prefeitura de Ribeirão Grande aderiu à compostagem depois de conhecer um projeto desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa, há pouco mais de um ano.

De 900 toneladas de resíduos sólidos recolhidas por ano, metade é de lixo orgânico, explica o coordenador de Meio Ambiente de Ribeirão Grande, Gustavo Henrique Ferreira. Pelo menos 80% deste material não vai mas para o aterro. “Conseguimos produzir mil quilos de adubo. Os custos aumentaram porque precisamos de funcionários, mas o passivo ambiental reduziu bastante”, diz. O adubo produzido é usado em praças e jardins da cidade.

Comunidade

Na capital paulista, um grupo de voluntários é quem teve a ideia de criar a primeira composteira em praça da cidade. A jornalista Cláudia Visoni, uma das envolvidas na ação experimental, relata que a compostagem da Praça das Corujas, na Vila Madalena, utiliza só folhas secas e esterco de cavalo. Todo o material produzido é usado numa horta criada na própria praça.

A participação da comunidade também motivou a adesão à compostagem numa região carente de Florianópolis (SC). O movimento “Revolução dos Baldinhos” foi criado em 2007 por agentes comunitários e membros do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), a fim de erradicar a leptospirose na comunidade Chico Mendes. As famílias receberam baldes de 5 litros para destinar o lixo orgânico da casa e depois depositá-lo em bombas instaladas nas ruas. O material passou a ser recolhido e levado à composteira criada no pátio de uma escola.

A técnica administrativa do Cepagro, Gisa Garcia, calcula que 200 famílias façam parte da iniciativa hoje, dando reaproveitamento a mais de 4 toneladas lixo orgânico por mês. O adubo produzido é vendido e o recurso revertido ao projeto.

fonte: Gazeta do Povo
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