Moradores sem terra vivem há 14 anos sem luz, mas têm esperança

Data 12/12/2012 | Assunto: Direitos Humanos

Com intervenção judicial, acampamento Porto Pinheiro está prestes a receber energia elétrica
Foto por: Alini Bender
foto1Energia elétrica. Este é o maior sonho das 110 famílias que moram no acampamento Porto Pinheiro, criado em parte das terras da Fazenda Manasa, em Porto Barreiro. Apesar das dificuldades e com intervenção judicial, depois de 14 anos de espera, os assentados realizarão este sonho.
A ordem de serviço foi autorizada no dia 5 de outubro. A empresa que fará a obra é a Dipel, de Cascavel. De acordo com a assessoria de imprensa da Copel, os trabalhos de instalação da energia na região devem começar no início de novembro e serão concluídos até o segundo semestre de 2013. Serão implantadas 95 ligações e o custo total da obra será de R$ 400 mil, custeados em parceria pela Copel e o Ministério de Minas e Energia, por meio do Programa Luz Para Todos.
De acordo com o prefeito de Porto Barreiro, João Costa, o projeto de instalação do assentamento está pronto e foi entregue recentemente em Brasília. “Agora depende apenas da assinatura da presidenta Dilma no decreto que o cria oficialmente”, afirma.
A área do acampamento Manasa tem 1.684 hectares, sendo 1.300 de área aproveitável e o restante mata ciliar e reserva legal, onde serão assentadas 124 famílias.
Nos tramites legais, a energia só pode ser instalada depois que o assentamento for legalizado, porém a demora maior foi devido a contestação da titularidade da área. Segundo moradores, foi feita uma cadeia da área dominial desde 1846 e desde então a área não apresenta título legal. Inclusive a Manasa não teria como comprovar a documentação. Por isso, não seria possível emitir o Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA).
Mas, como a luz era uma das maiores reivindicações das famílias agricultoras, foi realizada uma intervenção da justiça, para que a benfeitoria fosse disponibilizada. A pedido do prefeito João Costa, a superintendência do Incra no Paraná acionou o Ministério Público para intervir no processo, já que os pedidos feitos diretamente à Copel não foram atendidos.
O prefeito ainda ressalta que sempre acompanhou o processo, desde o começo. Tanto com relação à energia como da desapropriação da terra.

Há esperança
O pequeno Luan, de nove anos, nunca tomou banho em chuveiro quente, não assiste televisão, só escuta rádio a bateria e tem que aproveitar a luz do dia para fazer as tarefas escolares. Mas, para seu pai, um dos líderes da comunidade, Rogério Rigon, essa situação está perto de acabar. “Nunca perdemos a esperança, mesmo estando aqui há 14 anos. Quando nos instalamos, em 1º de setembro de 1998, éramos 373 famílias, hoje o número é três vezes menor. Muitos não aguentaram, deixaram as terras e foram buscar melhores condições. Nós estamos aqui, firme, forte e lutando”, emociona-se Rogério.
Para iluminar a casa eles usam lampião a gás, a querosene, vela ou luz a bateria. Para tomar banho quente, só esquentando água na chaleira. E para conservar alimentos eles dividem um freezer comunitário, que fica na escola.
Segundo Rogério, a implantação da energia nunca esteve tão certa. “Foi preciso recorrer a vários meios e o Ministério Público nos atendeu, jugando que estamos vivendo de maneira sub-humana, até o promotor se sensibilizou”, relata. “Lampião nunca mais”, comemora

Rogério
O irmão dele, Renê Rigon, que é professor, relata que nestes 14 anos houve muita luta e resistência, mas o que mais atrapalhou foi a burocracia. No entanto, tem esperança que a vida dura chegue ao fim. “A luz é o nosso sonho imediato, enquanto não temos o objeto principal da luta, que é a terra. Muitos pensam que terra é comércio, mas não é. É o meio de garantir a subsistência, lugar de cuidar da família e de resgatar a identidade do homem do campo. Somos filhos de agricultores e todos permaneceram no interior”, enfatiza.
A professora Luciana dos Santos Rigon revela que mesmo vivendo há tantos anos sem luz não se acostuma a algumas coisas. “Tem que esquentar a água para tomar banho no inverno, a comida sempre estraga porque não tem onde armazenar, não podemos nem manter os animais no pasto, por não ter cerca elétrica”, relata. “Do que mais sinto falta mesmo é informação. Aqui não temos acesso a um jornal, uma notícia, nada. Estamos desligados do mundo. Para carregar celular precisamos levar na escola”, lamenta.

Produção de alimentos
Renê ressalta que a terra está sendo bem aproveitada e praticamente tudo que eles precisam para sobreviver é plantado. “80% do alimento que comemos é produzido aqui. São frutas, verduras, carne e leite orgânicos”, explica. Inclusive, os produtores daquela região comercializaram seus produtos pela primeira vez no último sábado (20), na 1ª Feira de Economia Sustentável e Agroecologia, em Laranjeiras do Sul.




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