SOCIOEDUCAÇÃO - Carta Aberta: Simpósio Nacional em Socioeducação

Data 15/02/2018 | Assunto: Criança e Adolescente


Os Participantes do Simpósio Nacional em Sociodeducação, realizado entre os dias 8 e 10/11/2017, em Brasília/DF, divulgam Carta Aberta.

Simpósio Nacional em Socioeducação

Carta Aberta

Nós, participantes do Simpósio Nacional de Socioeducação e integrantes da Rede Nacional de Pesquisadores em Socioeducação, nos dirigimos à sociedade brasileira e especialmente para: MDH; MEC; MDS; CNE; CONSED; UNDIME; UNCME; CNJ; CNPM; CONANDA; FONACRIAD; MJ; FONAJUV; Gestores das medidas socioeducativas de Semiliberdade e Internação em Estabelecimento Educacional; Gestores das medidas de Liberdade Assistida e Prestação de Serviços a Comunidade; adolescentes e jovens que cumprem ou já cumpriram medidas socioeducativas e suas famílias; pesquisadores, profissionais e estudantes do campo da socioeducação; e a Comissão Especial sobre Revisão das Medidas Socioeducativas da Câmara dos Deputados.

Vivenciamos, no Brasil, uma realidade socioeconômica de profundas desigualdades sociais, pobreza e desrespeito aos diretos dos adolescentes e jovens. De modo recorrente tem-se destinado aos adolescentes e jovens autores de atos infracionais discurso preconceituoso, produzido pelo moralismo e senso comum. As adolescências em situação de sofrimento são culpabilizadas e criminalizadas em função de pertencimento étnico-racial, gênero, situação de pobreza, territórios periféricos, o que gera ódio e desprezo.

Em consequência deste conjunto de violências, surgem propostas legislativas de diminuição da idade penal, aumento do tempo de internação, encarceramento e punição dos adolescentes. Identificamos uma pulverização de políticas e um rompimento perverso com as prerrogativas da Constituição Federal e legislação vigente. Entretanto, nós, do campo socioeducativo, consideramos que os adolescentes brasileiros estão ávidos por reconstruir histórias de vida. Isso exige a elaboração de alternativas aos discursos totalizantes e institucionalizantes que precarizam projetos e planos que não atingem a realidade dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas.

Diante desse desafio, os 580 participantes do Simpósio Nacional em Socioeducação: a escolarização e o atendimento socioeducativo em perspectiva, reunidos em Brasília, de 8 a 10 de novembro de 2017, vimos defender as seguintes prioridades:

  1. Cumprimento dos marcos legais. As Normativas Internacionais de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes no Sistema de Justiça Juvenil, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Resolução nº 119/2006 do CONANDA e a Lei nº 12.594/2012, que instituem o SINASE, não vêm sendo efetivamente cumpridos, resultando em prejuízos perversos a adolescentes e à sociedade em geral.
  2. Prevalência da dimensão educacional e pedagógica sobre a punitiva das medidas. Instituições socioeducativas têm realizado o atendimento de modo a priorizar o caráter punitivo em detrimento do educacional, contrariando as determinações do SINASE, das Diretrizes Nacionais para Atendimento Escolar de Adolescentes e Jovens em Cumprimento de Medidas Socioeducativa, Resolução CNE nº 03/2016 e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica, Resolução CNE n° 02/2015.
  3. Gestão participativa e democrática. Espera-se do Sistema Socioeducativo a efetivação de relações horizontais, através de Equipes Multiprofissionais e Multidisciplinares, de caráter Interdisciplinar, conforme preconizado pelo SINASE e pelas Diretrizes do CNE. A gestão autoritária reproduz a supervalorização da segurança e compromete a dimensão educacional das medidas socioeducativas.
  4. Política integrada de gestão do Sistema Socioeducativo. O Plano Nacional Decenal de Atendimento Socioeducativo estabelece a articulação interministerial, no nível federal, e entre secretarias dos estados e municípios visando à unificação do atendimento. A separação entre a gestão das medidas privativas de liberdade e as de meio aberto prejudica a dimensão educacional do atendimento socioeducativo.
  5. Instalação de Fórum Nacional integrado de todas as medidas Socioeducativas, representando todas as instituições que atendem medidas privativas e não privativas de liberdade.
  6. Repúdio a qualquer tentativa de reduzir a maioridade e ampliar o tempo de internação conforme a Constituição Federal e o ECA. Esse retrocesso vai prejudicar a vida e a educação de dezenas de milhares de adolescentes, os quais terão sua trajetória de desenvolvimento comprometida.
  7. Ênfase no papel das universidades e instituições de ensino na formação dos profissionais da socioeducação. A partir do alinhamento teórico, conceitual e metodológico que fundamenta a política socioeducativa brasileira, assegurar a formação inicial e continuada para os profissionais e gestores do sistema socioeducativo, integrada à Escola Nacional de Socioeducação.
  8. Instituição efetiva da Rede Nacional de Pesquisadores em Socioeducação, iniciada neste Simpósio Nacional, agrupando pluralidade de instituições, para produzir e analisar informações, de forma comprometida com a garantia dos direitos dos adolescentes.
  9. Participação dos adolescentes em todas as fases da construção da Política Socioeducativa, promovendo o protagonismo e a cidadania desses sujeitos e seus familiares.
  10. Priorização das Medidas Socioeductivas não restritivas de liberdade, garantindo a excepcionalidade e brevidade da medida de internação em estabelecimento educacional, conforme o ECA.
  11. Valorização de práticas pedagógicas e de gestão escolar específicas à realidade socioeducativa, necessárias à garantia das aprendizagens e pleno desenvolvimento dos adolescentes e jovens.

Brasília, 10 de novembro de 2017

Participantes do Simpósio Nacional em Socioeducação:
a escolarização e o atendimento socioeducativo em perspectiva

CEAM Comunica - Informe do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares

[Fonte: UnB - Universidade de Brasília - CEAM Comunica - 10/11/2017]

 

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Referências:   (links externos)
»   ENS - Escola Nacional de Socioeducação
»   UnB/CEAM - Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília

 

 






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